Lígia Lebreiro por detrás das cortinas
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Natural de Torres Vedras e familiarizada com Trás-os-Montes, onde passava férias no meio dos burros, dos gatos e das galinhas, Lígia Lebreiro mudou-se desde cedo para Santa Maria da Feira. Mulher de muitos estudos, tirou o curso de piano, esteve dois anos em História de Arte e Design de Moda, acabando por se dedicar à indústria têxtil, como designer de moda. Farta do “mundo dos trapos” e incentivada por aqueles que a rodeavam na altura, iniciou o projeto Persona. Com uma grande bagagem de competências, que na altura não sabia muito bem para que serviriam, vê os seus estudos aplicados ao tratar da elaboração dos figurinos para a companhia. Ao longo dos anos, Lígia descobriu que o seu passatempo preferido é não fazer nada, tendo em conta a necessidade contemporânea de se ter que estar sempre a fazer alguma coisa. Mas, ainda assim, um dos seus maiores gostos é pescar. A Mai Magazine entrou no barco, que desaguou num palco de conhecimento, e convida-te a assistir a mais uma peça dirigida por Lígia Lebreiro.

Mai Magazine (MM): “De pequenino se torce o pepino”… a arte sempre esteve presente na tua vida?

Lígia Lebreiro (LL): Para mim sim. Por razões familiares, onde há alguma tradição e gosto pela arte. Uma das pessoas que mais me influenciou desde pequena foi o meu avô, que vivia em Trás-os-Montes e era uma pessoa fora do comum. Ele era apaixonado pela arte e eu, como uma das pessoas mais próximas dele, partilhava com ele imensas coisas, nomeadamente o gosto pela música e os instrumentos. Depois, pelos meus pais, que se conheceram em Coimbra, no meio dos espetáculos que faziam para os coros académicos. Essa realidade fez com que nos dessem alguma educação artística, no sentido de nos facilitarem o acesso a. Para além disso, tenho uma tia que é ceramista e um tio que foi o meu primeiro professor de ballet. No fundo, tive a vantagem das pessoas da minha família valorizarem bastante a arte.

(MM): Na tua infância fizeste parte de algum grupo de teatro?

(LL): Não, mas adorava teatro. Lembro-me que a minha turma tinha uma relação muito próxima e, como não haviam muitos ATL’s, juntávamo-nos todos em minha casa para fazer teatro, porque os meus pais tinham mais paciência para nos aturar. Lembro-me de andar lá a tirar as cortinas à minha mãe para fazer fatos de teatro (risos).

(MM): O que é que o teatro significa para ti?

(LL): Acho que o teatro está muito mais próximo da vida das pessoas do que elas imaginam. Temos a tendência para separar o teatro da vida real mas, para mim, é algo que serve para nos aproximarmos de nós mesmos, tanto como artista ou público. Ou seja, se vou ver um espetáculo e me identifico com aquilo que é transmitido, o retorno é para mim mesmo. Como artista é a mesma coisa: se consigo transmitir algo e consigo o retorno do público, isso aproxima-me da minha essência, no caso, da minha “persona”. Há uma ideia de que “persona” eram as máscaras que se usavam antigamente no teatro grego; uma máscara como uma coisa artificial, mas o significado é exatamente o oposto. Eles acreditavam que o canal entre a boca e a máscara era o canal entre a alma e o que chegava ao público. Assim, não só tinha o efeito de amplificação sonora, como também daquilo que somos. É essa a minha visão do teatro.

(MM): De momento, estás envolvida em quantos projetos?

(LL): Em vários. Sou professora de dança, de ballet clássico, faço a direção artística da Companhia Persona e depois faço a direção artística de outros projetos, autónomos ou pontuais. Para aí há 10/11 anos, tanto eu como o Simão decidimos criar uma associação com uma estrutura jurídica, que desse suporte a tudo aquilo que nós fazemos. Neste momento, a associação é dividida em várias atividades: a escola, a escola de bailado, a Companhia Persona e a ARTANE. A nossa sede é no Cine-teatro António Lamoso.

(MM): Como foi o percurso até te tornares diretora artística da Companhia Persona?

(LL): Tudo começou há cerca de 15 anos. Tinha uma visão diferente daquilo que era o ballet e do que podia dar às pessoas, nomeadamente aos alunos, e então pensei criar uma escola de bailado e artes cénicas. A ideia era pegar numa técnica e numa tradição com 400/500 anos e transmitir valores úteis para as pessoas. Eu queria, através da educação artística, no meu caso o ballet, abrir a perspetiva das pessoas, criar público, colocar as crianças desde pequenas a conviverem com todo o tipo de formas artísticas e, principalmente, de formas que se cruzassem. No meu ponto de vista, a arte é uma ferramenta a que todos devíamos ter acesso, porque nos ajuda a construir a personalidade, a desenvolver a sensibilidade, a capacidade de comunicar, a te apresentares e a interpretar. Hoje em dia, há o défice da interpretação, porque simplesmente aceitamos que “A+B=C”. Não há espírito crítico. Então, a partir do momento que comecei a desenvolver projetos com os alunos, percebi que tinha de separar as coisas: os alunos são alunos e depois há um trabalho de escola; se queríamos desenvolver o lado artístico, tínhamos de criar outro tipo de atividade e aí apareceram os Persona. A companhia nasceu de uma necessidade nossa, de que “já não chega apenas com a escola”.

(MM): Quando é que a Companhia foi fundada?

(LL): O primeiro espetáculo que fizemos como companhia foi para aí no segundo Imaginarius (2002). Foi no Cine-teatro, com uma banda feirense que ia fazer a apresentação do seu álbum e, na altura, convidou-nos para fazer a encenação do espetáculo. Depois, fizemos uma segunda apresentação mais curta desse espetáculo, num espetáculo dos Mão Morta. No final, o diretor técnico dos Mão Morta veio ter connosco para saber quem eramos e o Simão disse “olha é ali aquela menina, a Lígia, vai falar com ela”. Ele veio ter connosco para nos dar os parabéns, dizendo que tínhamos dado um espetáculo melhor do que o deles, sem grandes recursos: “Vejo muitos espetáculos pelo mundo fora e aquilo que vocês fazem aqui neste cuzinho de judas é muito interessante e válido”. Acho que nesse dia compreendemos que havia qualquer coisa de diferente e que tínhamos qualidade para fazer mais do que, simplesmente, coisinhas aqui para terra, no Cine-teatro.

(MM): Porquê o nome Persona?

(LL): O Carlos Martins, ex-vereador da Cultura, convidou-nos a fazer uma proposta para o Imaginarius e aceitámos o desafio, já que nunca tínhamos feito teatro de rua. Criamos um espetáculo, chamado “Persona, uma homenagem ao sonho e ao teatro”. Quando chegou a altura dos press release e de mandarmos currículos, tínhamos de dar um nome à companhia e ele surgiu exatamente aí. Identificávamo-nos de tal maneira com o conteúdo, que acabámos por adotar o nome “Persona”.

(MM): Como defines este grupo de trabalho? Que tipo de pessoa é o artista dos Persona?

(LL): É mutante em todos os sentidos. Primeiro porque tem de se transfigurar como artista, o que é natural, mas a própria companhia é mutante. Há cinco anos atrás, tínhamos um elenco de 10/15 pessoas, com quem trabalhávamos regularmente, porque tínhamos uma necessidade muito grande de criar uma linguagem comum e de desenvolver aquilo que chamamos a ‘linguagem persona’. Mas era difícil manter este esquema de trabalho, com ensaios duas a três vezes por semana, porque todos tinham as suas profissões e não tínhamos tantos espetáculos como gostaríamos, o que impossibilitava sustentar uma companhia. Contudo, um “Persona” é sempre “Persona”. Todos os que já passaram – e os que virão – mesmo não fazendo parte, continuam a identificar-se e a fazer parte de todos os convívios que fazemos. Como diretora artística, convido as pessoas para um espetáculo segundo a sua especificidade e, se estiverem disponíveis, ficam. Se não estiverem, convidamos outras pessoas, que passam a ser “Personas”.

(MM): Achas que a população de Santa Maria da Feira compreende o vosso valor e essência?

(LL): Sim, acho que somos vistos como uma referência a nível local. Se não reconhecem, não existia essa avaliação de ouvirem falar dos Persona e nos conhecerem. Ao longo destes anos temos participado em muitas coisas aqui. Aliás, acho que temos uma capacidade de criar muito grande. Todos os anos criamos novos e surpreendentes espetáculos, mas ao mesmo tempo isso não nos tem ajudado ao nível daquilo que queremos fazer. Ou estás a criar ou a rodar o espetáculo e o que tem sido mais difícil é, depois de o criar, levá-lo para tournée, vendê-lo noutras salas ou festivais. Esse é o nosso “calcanhar de Aquiles”.

(MM): Qual é a diferença entre atuar em casa e no estrangeiro?

(LL): Há coisas que são exatamente iguais. Por exemplo, o medo que as coisas não funcionem e as borboletas na barriga são iguais em todo o lado. Aqui tens o teu público e as pessoas são exigentes porque conhecem o teu trabalho; lá fora é o contrário, não conhecemos as pessoas que vão ver o nosso projeto e pensamos como é que vão reagir e avaliar. Mas é um bocado idêntico.

(MM): Imaginavas-te com uma carreira feita totalmente no estrangeiro?

(LL): Só, não. Houve uma altura em que essa oportunidade aconteceu, mas eu tenho uma costela transmontana (risos), sou muito ligada às raízes. Tenho uma família muito grande, quatro filhos. Tenho os meus bebés (projetos), nos quais investi durante 15 anos e custa-me largar tudo assim. Na perspetiva de largar tudo e ir, custa-me, embora pudesse ser possível. Por outro lado, perante o mundo global em que vivemos, tu podes ter as tuas raízes e trabalhar em todo o lado. Não é assim tão difícil e assim vejo-me facilmente.

(MM): Tendo em conta que “levar a vida às custas do teatro” é difícil, que conselhos podes dar aos jovens que pensam fazer dele vida?

(LL): Primeiro, que invistam na sua formação técnica, que escolham bem a sua área, que arrisquem, aprendam com os erros e sejam persistentes, não desistam. É preciso, também, ter a noção de que ser um bom artista não é para qualquer um. Há muita gente muito boa, o que implica muito investimento. Além disso, existem imensas outras áreas ligadas ao teatro que estão a ser negligenciadas. Faltam imensas pessoas, técnicos de luz, de som, de multimédia, mas as pessoas acham que os 15 minutos de fama são mais importantes e às vezes enganam-se.

(MM): Achas que a era digital pode ser uma ameaça às formas de arte tradicionais?

(LL): A importância da TV e dos computadores, as novas tecnologias da informação, acabaram por nos absorver muito mais enquanto espetadores do ecrã do que do palco. No entanto, acho que continua a haver espaço para tudo. Acho que é importante promover as outras formas, porque não é difícil tu promoveres o “ecrã”; ele promove-se por natureza, é só chegar a casa e ligar a TV, por exemplo. Agora, é preciso apoiar as outras formas de arte, porque elas não entram pela casa dentro, obrigam-te a que queiras mesmo ir ver e acho que isso passa muito por educação. Se as escolas levarem os alunos aos espetáculos, os espetáculos vierem até às escolas, se houver uma educação artística no sentido de sensibilizar para o espetáculo, é aí que está o “de pequenino se torce o pepino”. Talvez assim a próxima geração vá mais ao teatro.

(MM): E de que forma achas que o teatro se pode adaptar à era digital?

(LL): O teatro não tem de se adaptar a nada. Ele vai sempre existir, mas vai-se transformando. Hoje em dia é muito mais abrangente e cruza muitas mais linguagens e a própria linguagem digital, no caso dos Persona, é usada. Quase todos os projetos que estamos a desenvolver relacionam-se com video mapping, vídeo ou artes digitais. Portanto, faz parte da nossa linguagem. Não sinto nada que o teatro esteja ameaçado. Aliás, acho que é um desafio. Vejo muito mais a tecnologia como ferramenta do que como ameaça.

(MM): Para além de professora/diretora da escola, como é a vida de Lígia fora do palco?

(LL): (risos) Tenho uma família grande, quatro filhos, um neto, mas passo muito pouco tempo com eles. Tenho os meus pais, que moram aqui na Feira, e são a âncora. Foram as pessoas que sempre me apoiaram e me disseram que não ia deixar aquilo que tivesse de fazer, porque eles estão aqui para apoiar. Mas, basicamente, é uma vida como a das outras pessoas. Tenho os meus cães, um gato e os meus amigos, com quem gosto muito de estar (risos).

(MM): Quais as perspetivas para o futuro, pessoal e profissionalmente?

(LL): Não faço a mínima ideia (risos). A dificuldade de viver esta vida é exatamente essa: tu nunca sabes o que se seguirá. Pode correr tudo muito bem e aparecer uma proposta fantástica, como estás a contar com algo e, de repente, já não é possível. Neste momento, as coisas estão difíceis para toda a gente e sinto que as pessoas entram naquela perspetiva de que a cultura não é fundamental; a cultura é secundária. Eu acho que não é preciso investir muito para que a cultura aconteça. É possível apoiar as associações mais locais, do que propriamente fazer grandes eventos em que o dinheiro vai para fora do país, mas os nomes sonantes têm outro impacto em termos políticos. No entanto, dia 16 de março vamos estar, não presencialmente, em Dusseldorf, num bar que irá fazer uma mostra só de trabalhos Persona e ARTANE. Este acontecimento será transmitido em direto para a web e está previsto que as pessoas possam fazer perguntas através do Skype. A nossa ideia é, cada vez mais, promover o nosso produto lá fora, sem estarmos dependentes da terrinha, que tem os seus limites.

(MM): Uma vez que já conheces a Mai Magazine, de que forma achas que o nosso trabalho está a tentar mudar/intensificar os traços culturais do concelho?

(LL): Acho que esta ideia de vocês divulgarem e questionarem pessoas que estão ligadas à cultura do concelho, já é uma excelente maneira de intensificar, porque estão a chegar a um público que talvez nós não chegamos, nem fazia parte do nosso alvo, e isso é interessante, porque o podemos alargar. Acho que têm um veículo super interessante e devem continuar a procurar as pessoas, as companhias, as associações ou os artistas. Mesmo em termos de inovação comercial, existem pessoas de cá que têm ideias interessantes, mas não se dá o devido valor e vocês, a nível local, podem valorizar aquilo que temos, perceber o que está a acontecer de interessante e mostrar. Até porque pensamos que somos “os coitadinhos”, que estamos quase ao nível da Grécia e não é assim. Temos pessoas excelentes a nível profissional, criativo e artístico, e é importante conhecê-las, para percebermos que temos pessoas que fazem coisas ao nível dos melhores no mundo.

Reportagem – Fabiana Oliveira
fabianaoliveira@maimagazine.net

Fotografia – Dimas Pinto & António Loureiro

**Este texto foi escrito de acordo com as novas regras ortográficas**

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