Entrevistas

CiRAC, uma escola de virtudes

A Mai Magazine esteve à conversa com Silvina Tavares, presidente do Círculo de Arte e Cultura de Paços de Brandão (CiRAC), e mostra-te o outro lado de uma associação que tem trabalhado em função do seu público, contra todas as dificuldades. Mais do que uma associação, revela-se uma escola, com o objetivo de educar e formar pessoas. O seu percurso no mundo artístico é de qualidade e luta, sendo que o próximo desafio está a dias de acontecer. A Mai Magazine estará presente e convida-te a assistires ao 18.º encontro de Teatro, que terá lugar no Cineteatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira, no dia 3 de Dezembro, pelas 21h45. Este espetáculo conta com a presença de dois grandes comediantes portugueses: Aldo Lima e Francisco Menezes, que prometem muita boa disposição, concentrada numa só sala.

Mai Magazine (MM): Quem, e quando, é que a Associação Juvenil CiRAC foi fundada?
Silvina Tavares (ST): O CiRAC foi fundado há 35 anos, por um grupo de jovens de Paços de Brandão. Esse grupo pertencia a um movimento ligado à igreja, a Liga Operária Católica (LOC), e foi assim que decidiram formar uma Associação cultural e recreativa, o CiRAC. Inicialmente, o seu intuito era animar as liturgias, mas entretanto abriram-se as portas à música, e começaram a fazer intercâmbios com outras associações. As duas principais atividades eram o teatro e a música, mas com o passar do tempo, o trabalho não ficou apenas por ali.

MM: De momento, quem está por detrás da associação, e quais as atividades que ela oferece?
ST: De momento, eu estou à frente da associação, enquanto presidente, e conto com o apoio de Paulo Joaquim, como secretário. Contamos ainda com diferentes diretores, que estão responsáveis por cada secção. As atividades oferecidas são: música, com o coros infantil e sénior; teatro; artes circenses; pintura, com uma escola fundada pelo Mestre Ramiro Relvas; comunicação social, que é responsável pelo nosso jornal mensal, o “Noticias de Paços de Brandão”; e atletismo. E é assim que trabalhamos, diariamente, o recreio, a arte e a cultura da cidade.

MM: Como é feita a gestão dos diferentes grupos?
ST: Apesar da casa ser grande, neste momento é pequena para todas as atividades existentes. É necessário gerir o tempo e o espaço, para se conseguir fazer tudo e não nos atrapalharmos. Neste sentido, após acordo das diferentes secções, existe um plano estabelecido, sem que as atividades coincidam umas com as outras.

MM: Existe a possibilidade de se ser sócio da associação. O que é que implica?
ST: Para se ser sócio da associação, é necessário o preenchimento de um formulário e o pagamento de uma quota anual de 10 euros, bem como uma ‘jóia’ de 5 euros. Para isso, o melhor é passar pela secretaria, que está todos os dias aberta (das 13h30 às 18h30).

MM: Numa altura de crise como a que vivemos, de que forma suportam as despesas?
ST: É muito complicado, mas não é só para a nossa associação. No Encontro Nacional de Associações Juvenis (ENAJ), comprovámos isso mesmo, porque apercebemo-nos que todos se queixam do mesmo. Existe uma grande dificuldade financeira. Ainda há pouco tempo fizemos a cobertura da casa, porque chovia cá dentro como se fosse lá fora, e foi muito dispendioso, mas era necessário. Habituamos as pessoas a um trabalho feito com muita qualidade, portanto para combater a dificuldade financeira preferimos mexer na quantidade, para que a qualidade não desapareça. Ou seja, no caso do Festival de Música de Paços de Brandão, em vez de termos sete concertos temos cinco; ou, por exemplo, no Encontro do Teatro, enquanto antigamente tínhamos cinco ou seis peças, este ano vamos ter apenas quatro.

MM: Mas contam com algum apoio?
ST: Sim. Temos essencialmente o apoio da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, do Instituto Português da Juventude (IPJ), do Instituto das Artes, do Inatel, do Ministério da Cultura do Norte, e da Junta de Freguesia de Paços de Brandão. Para além disso, também conseguimos alguma receita através da publicidade. No presente, temos a consciência que as autarquias estão sem dinheiro, mas a associação continua a trabalhar, e a investir. Temos de ser autónomos, não podemos ser subsídio-dependentes. Mas quando o orçamento e o plano de atividades é por eles aprovado, e nós apresentamos trabalho, esperamos poder contar com o estipulado para esse fim.

MM: E quanto aos espetáculos que têm feito, tanto em Paços de Brandão como nas redondezas, acham que lhes é dado o devido valor?
ST: Costuma-se dizer que “santos à porta da casa não fazem milagres”. Por vezes fico triste, porque temos aqui grandes espetáculos e, quando vemos o público que chega, uma grande parte não é de Paços de Brandão, como é o caso do nosso Festival Internacional de Música, em que a entrada é gratuita. Há casos em que temos presente, gratuitamente, grandes músicos e orquestras, e as pessoas não dão valor, mas se fosse numa Casa da Música, por exemplo, pagam para ver. Claro que as pessoas da terra gostam e apreciam bastante o CiRAC, mas o facto de estarem presentes é quando percebemos mesmo que gostam.

MM: Qual a sensação aquando da atribuição da medalha de mérito municipal, em 2001?
ST: Para uma associação, a atribuição de uma medalha de mérito é muito importante, sem dúvida. É sinal que está a trabalhar e o merece.

MM: Desde 2003 que participam na Viagem Medieval. Esta foi uma grande oportunidade para associação, visto que a partir daí as portas foram-se abrindo. De que maneira ganharam mais “projeção”?
ST: Na minha opinião, o CIRAC ganha projeção em qualquer que seja a sua participação, como por exemplo quando o grupo de bombos abriu e fechou o “Ernestos 2011”. Em relação à Viagem Medieval, é um evento muito importante, porque envolve pessoas de todo o mundo e se nós participamos, e fazemos um bom trabalho, a Feira Viva sabe-o, e é uma razão para nos convidar no ano a seguir, dando-nos projeção. Neste caso, também temos a tasca da associação, que é realmente importante, porque ganhamos dinheiro que nos ajuda a fazer face às despesas.

MM: De todas as participações que vão fazendo, qual a mais importante para a associação?
ST: Todas as atuações são importantes. Eu não devo, nem posso, dar mais importância a determinada atividade, porque cada trabalho é diferente do outro e cada membro, que faz aquilo que mais gosta, tem a sua importância.

MM: Estão a poucos dias da realização de um espectáculo, lado a lado com Aldo Lima e Francisco Menezes. Como está a ser a preparação?
ST: A preparação está a correr dentro da normalidade. Normalmente, eles mandam-nos aquilo que precisam, a nível de espaço e de cenário, e nós tratamos. A nível da divulgação, está tudo a ser feito e meios de comunicação, como a Mai Magazine, são muito importantes para a nossa divulgação.

MM: E para o futuro, quais os objetivos da associação?
ST: Os populares dizem que “o futuro a Deus pertence”, mas não é bem assim. Na realidade, o futuro pertence ao trabalho que cada um e nós somos é capaz de fazer. Só precisamos que nos deixem trabalhar. E para trabalhar precisamos de meios e matéria-prima, mas isso tem um custo. Neste momento, não estamos em condições de fazer projetos a longo prazo. Temos muitos projetos e coisas muito boas para fazer, mas o importante é viver um dia de cada vez. Contudo, estamos a preparar o nosso Festival de Música para o próximo ano. A nossa vontade é continuar, e em grande, mas tudo depende de como as coisas vão correndo.

MM: O que é que o CiRAC consegue mudar na vida das pessoas?
ST: Eu sempre disse que o CiRAC é uma escola. Esta aprendizagem relaciona-se com o saber estar, o saber programar e o saber respeitar regras, porque aqui convive-se com outras pessoas e conhecem-se outras realidades. Hoje em dia, os jovens têm ‘milhentas’ coisas que os atraem e, efetivamente, eles fazem-no, mas depois do trabalho feito aqui. Na nossa sede temos à volta de 100 jovens a trabalharem, e isso já diz muito. Se o conseguimos, é sinal que gostam de cá estar e que aprendem alguma coisa. Se assim não fosse, não ficavam.

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Reportagem – Fabiana Oliveira

**Este texto foi escrito de acordo com as novas regras ortográficas**

 

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