Mai Mundus

Piodão, Aldeia de Memórias

Já que estamos em pleno inverno, pensámos que faria todo o sentido aproveitar uma tarde fria desta bela estação para rumarmos até uma das aldeias mais típicas de Portugal.

Deslocamo-nos até ao distrito de Coimbra e, por entre serras e vales, entramos na vila portuguesa de Arganil. Aí, deparamo-nos com várias indicações de núcleos urbanos erguidos em terras altas, muito antes do domínio romano, como Malhada Chã, Tojo, Chãs d’Égua, Barreiros ou Covita.

À medida que avançávamos, íamos notando na quantidade de castanheiros, oliveiras, pinheiros, urzes e giestas que dominavam todo o espaço envolvente. A flora típica do local fez-nos perceber que a natureza está praticamente em estado puro, o que em muito contribui para os difíceis acessos às aldeias de feição rural. Poderá parecer um inconveniente, mas a verdade é que são esses traços originais que lhe conferem a vida de outrora e nos fazem pensar na capacidade que tivemos, ao longo de séculos, de nos adaptarmos a locais tão inóspitos.

Ao longe, na Serra do Açor, vimos desenhar-se a aldeia histórica de Piódão. As suas casas típicas de xisto e lousa, marcadas pelo azul forte das portas e pelos frisos das janelas, avolumam-se ao longo da encosta. É curioso pensar que a uniformidade da cor se liga ao isolamento a que a “Aldeia Presépio” sempre se viu confinada. Diz-se que na única loja da povoação haveria apenas uma cor disponível, daí o azul ter sido a cor destinada a dar luz ao terreno xistoso.

Ansiosos por podermos contemplar mais de perto a arquitetura medieval, fomos à descoberta das ruas sinuosas e estreitas da aldeia serrana. Enquanto percorríamos esses caminhos de história, lembrávamos as gentes que a ela deram início. A povoação que daria o nome à aldeia remonta ao século XIII e terá, a certa altura, sentido necessidade de se dispersar pelo vale, a fim de diversificar a sua produção de cereais para, desse modo, dar resposta às exigências do aumento populacional. Ainda assim, Piódão é conhecida, ao longo do tempo, como um local de refúgio e isolamento do mundo. Por exemplo, o primeiro recenseamento populacional da aldeia indica apenas a existência de dois moradores.

Confidenciaram-nos, ainda, o facto de este pedaço de terra estar rodeado de mistérios. Reza a lenda que foi na aldeia de Piódão que se refugiou um dos assassinos de D. Inês de Castro. Diogo Lopes Pacheco era procurado quer pelo Rei de Castela, quer pelo próprio D. Pedro, que ansiava desalmadamente vingar a morte da sua eterna amada. Influenciados, ou não, por este espectro, a verdade é que o silêncio por entre estas ruelas medievais é denso.

Na tentativa de preservar a sua essência, Piódão é hoje uma aldeia restruturada pela força do tempo e do turismo. A Igreja Matriz, do século XVII, o Núcleo Museológico, onde estão expostos os costumes e as tradições da aldeia, assim como a “praia fluvial” de Piódão ou os espaços de turismo rural são exemplo disso. Da aldeia serrana onde outrora se cruzavam pastores, agricultores, apicultores e mineiros, resta apenas a sua memória.

 

Texto – Próxima Evasão

 

**Este texto foi escrito de acordo com as novas regras ortográficas**

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